Neemias estava vivendo confortavelmente como copeiro do grande rei persa Artaxerxes (1.11-2.1). Mas, ao ouvir que seu povo e cidade estavam em grande miséria e ruína, ele se entristeceu profundamente (1.4 e 2.2,3). O lamento de Neemias não é de um desesperado, conformista, fatalista, ou do murmurador, que já entregou os pontos e que agora está com espírito de autocomiseração engrossando o cordão das carpideiras. Neemias, movido por compaixão, chora e ora a Deus, buscando uma solução. Neemias se coloca como um instrumento nas mãos de Deus, como um agente transformador da realidade. Ele chora, ora e age!

Diante de tamanha crise, Neemias não fica buscando culpados,  que é uma atitude comum daqueles que se auto justificam. Nem tampouco fica olhando em volta a espera de que alguém faça alguma coisa, ou seja, ele não transfere para os outros a responsabilidade. Neemias assume o fardo, pois quer tornar-se parte da solução: “peço-te que me envies…” (2.5).

Neemias era um homem de oração. Ele ora nos momentos de crise (1.4), ora para confessar pecados (1.6), ora quando está sendo perseguido (4.4) e ora diante da tentação (6.9). Antes de falar com o rei, Neemias fala com Deus (1.10). Antes de reformar os muros de Jerusalém, ele buscava a reforma dos muros de seu próprio coração.  Neemias confessa pecados e clama pela misericórdia divina (1.4-10).  Orava e agia, fazendo aquilo que estava ao seu alcance. Neemias orava e vigiava (4.9)!

O rei reparou que Neemias estava triste, o que lhe despertou a atenção, pois nunca o havia visto entristecido anteriormente. Pois, Neemias era um homem alegre, disposto, cheio de fé e amor, que são frutos do Espírito Santo.  Era mesmo de se estranhar que estivesse triste!

Movido por compaixão, Neemias toma uma atitude,  respeitando as autoridades constituídas (2.5-9), ciente de que Deus, que o estava movendo,  também moveria o coração das autoridades (1.10). Com certeza, o fato de Neemias ter sido um funcionário íntegro e leal durante todo o período em que serviu no Palácio colaborou para que o Rei fosse simpático a cada uma das suas solicitações (2.8). Neemias nunca foi um homem rebelde. Certa feita, seus opositores tentaram acusa-lo de rebeldia (2.19), mas tal acusação se provou infundada, pois Neemias possuía uma carta de autorização assinada pelo próprio rei Artaxerxes (1.7-8).

A compaixão nos aproxima dos aflitos. Neemias deixa o palácio e viaja para onde está o problema. Primeiramente, ele busca avaliar a situação em loco a fim de ter uma noção clara da dura realidade (3.13). Neemias não era exibicionista e nem afoito. Ele não chegou abalando em Jerusalém. Esperou três dias antes de tomar qualquer atitude (2.11). Ele começou com discrição, pois, a princípio, não compartilhou com ninguém os seus planos (2.12). Faz uma inspeção noturna para não chamar muita atenção (2.13). Uma avaliação cuidadosa é necessário, pois devemos entender o problema antes de propor soluções.

Diante da contemplação da calamidade, Neemias  não desanima, pois sua fé em Deus o torna otimista em relação ao futuro. Assim, ele, estrategicamente, busca recursos e promove uma mobilização, motivando a todos para, unidos, reconstruírem os muros da cidade (2.17-18). O recrutamento se faz necessário, pois ninguém constrói muralhas sozinho. A visão, a fé e o entusiasmo de Neemias são contagiantes! O povo responde ao chamado dizendo: “Sim, vamos começar a reconstrução”! E o povo cumpriu o que prometeu! (5.12).

Neemias enfrentou muita oposição. Sempre haverá opositores que se levantarão contra a obra de Deus. Neemias se deparou com opositores externos como Sambalá e Tobias que eram líderes de outros povos, mas também teve de lidar com opositores internos, traidores do próprio povo de Deus, como Semaías (6.13).

Neemias foi escarnecido por seus inimigos, que fizeram pouco caso dele, procurando ridiculariza-lo (4.1-3); ele teve de enfrentar ataques físicos (4.7-8); ataques morais, calúnias (6.5-9); traição de um amigo que também se revelou falso profeta (6.10-13) e teve de encarar inúmeras provocações (6.19).

Neemias, também, revela outras virtudes como a perseverança de quem sabe muito bem o que quer e onde quer chegar, pois ele não desanima diante das críticas dos pessimistas e invejosos de plantão (2.19-20; 6.3). Não subestimava o inimigo, estava sempre alerta, orando e vigiando (4.9, 16). Mas também não se intimidava diante das ameaças dos adversários. Ele dizia: “Não tenham medo deles. Lembrem-se de que o Senhor é que é Grande e temível” (4.14).  Neemias revelou muito discernimento espiritual para não ser enganado pelos falsos amigos e falsos profetas (6.12). Deste modo, Neemias nos ensina a levantar muros de proteção não apenas em volta da cidade, mas também em torno de si.

Neemias mostrou-se íntegro mesmo após assumir a posição de governador (6.14-18).  Neemias não foi para Jerusalém porque intencionava o posto de Governador, sua missão foi motivada por pura compaixão (1.3-4). No entanto, como ele foi fiel no pouco, sobre muito foi colocado, mas, mesmo assim, seguiu sendo leal a Deus e aos seus princípios éticos (Mt 25.23).

Neemias nos conclama a lutar em favor da família! “lutem por seus irmãos, por seus filhos e por suas filhas, por suas mulheres e por suas casas” (4.14). Notar também o que está registrado em Neemias 3.28: “fizeram reparos cada um em frente de sua própria casa”.  Precisamos fechar as brechas da muralha para nos protegermos contra os ataques inimigos (4.7). Devemos também lutar contra todos os inimigos que pretendem destruir a família, lembrando que nossa luta não é contra carne e sangue, mas, sim, contra os exércitos espirituais que semeiam a corrupção e que atuam sobre os filhos da desobediência (Ef 6.12 e 2.1-2).

Neemias sabia liderar com sabedoria, firmeza, coragem, ânimo, determinação e planejamento.  Certamente, valeu-se de toda a sua experiência adquirida ao longo dos anos em que serviu ao rei. O capítulo 3 revela detalhes de toda a bela organização de tarefas. Cada um ficou incumbido de uma tarefa específica. Havia muita cooperação como se pode observar através das inúmeras expressões do tipo “ao lado de” ou “ao seu lado” ou “junto a estes”. Eles trabalhavam em equipe e estavam também organizados em turnos, de modo que quando uma equipe terminava o seu turno, logo era substituída por uma outra que dava sequencia ao trabalho (3.16, 17, 21, 24). Grandes coisas acontecem quando não nos importamos com quem é que vai levar a fama! Tem muita gente que age como quem diz: “eu não vou colocar azeitonas na empada de ninguém”.  Atitude mesquinha e deplorável que conspira contra a obra de Deus. Gente desta espécie que deseja sempre ser o centro das atenções e que busca sempre receber a fama e o destaque não tem parte no Reino de Deus. Ai destes, como disse Jesus, pois “fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes, e amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas” (Mateus 23:5-6).

Os muros foram reconstruídos em apenas 52 dias (6.15)! Isto é que é trabalho em equipe debaixo da orientação e da bênção de Deus (6.17)!

A reconstrução dos muros trouxe dignidade, proteção e paz para a cidade de Jerusalém.  Mas o trabalho não parou por aí, pois o mais lindo foi que Neemias colaborou para o povo de Deus voltar-se a dar ouvidos as Escrituras Sagradas (Cap. 8). A Palavra de Deus produziu um grande avivamento espiritual! O povo fez um pacto (9.38) no sentido de priorizar as coisas de Deus: “Não negligenciaremos o templo de nosso Deus” (10.39). O povo se comprometeu com a construção das muralhas e agora está também comprometido com a edificação da Casa de Deus! O povo de Deus é povo do pacto, povo aliançado com Deus, povo comprometido com a Missão! Não podemos ser cristãos nominais, não podemos servir a Deus de qualquer maneira. Como Jesus, Neemias purificou o templo! Ele mostrou-se também muito zeloso quando a necessidade de santidade no ministério sacerdotal (13.26-30).

Quantas preciosas lições podemos aprender com este fiel servo de Deus que foi Neemias!

Bispo José Ildo Swartele de Mello